Sobre vovó Georgina I
O nascimento da Família Ventura
Descobrimos que a vovó Georgina não foi uma boa mãe. Foi brava! Não foi suficiente quando precisou. Ah, vó! Como julgá-la com olhar de netos? Como assumir óculos de outra geração? Como vestir seus calçados na época em que mulher tinha voz não. Votchi! A senhora era dura, mandona, por vezes, trapaceira; mulher suficiente, muito presente, em todos os espaços; abraçava, batia, abençoava e expulsava… e que errou.
Oh, vó! Vó boa, mãe ruim.
Sempre soubemos que não gostava muito de sua raiz e sotaque mato-grossense, tinha vergonha, por vezes, será? Filha da parte pobre da família, que era entregue para trabalhar para a parte rica. Que fado. Penso hoje numa montagem cega das pecinhas de um quebra-vida, que as dores que lhe foram entregues laceravam rugas na sua alma e a fizeram pujantemente seguir em frente, ou melhor, para o sul do Estado, com a renca dos mais novos da família.
Campo Grande, a terra morena das oportunidades de vida e dignidade que se fizeram num casarão da Rua Silveira Martins, na Vila Alba. Lavar fardas, casar filhos, proteger o caçula e mimar os netos. Assistir o Comercial e tocar bolichos. Zelar pelo marido mais novo, fugido de terras baianas com o sobrenome que batizaria a geração campo-grandense, os Venturas.
A geração que se ramificou, criaram segredos, e são felizes às suas maneiras, mas não longe da potente e fiel mãe, a matriarca da família Gomes Pinto de Souza, que tentava negar, mas não perder o sotaque cuiabano de Coxipó da Ponte e da Gleba da Pombas. Fingir que tinha perdido o Pinto dos mato-grossenses (piada interna). E, ah! O sobrenome Ventura, que foi adotado só no cartório para os mais novos da família.
Catar pequi e guavira; ser mascate, fazer muamba, viajar para Goiânia, Bolívia e Paraguai, para renovar os estoques e usar a lábia com os vijinhos da alfândega; rasgar a região urbana e rural num fusca ou corcel dirigidos pelo vovô nos tempos de Calçadão da Barão e do Camelódromo (ainda na época que não se tinha cobertura e as bocas de esgoto explodiam entre os fregueses durante as fortes chuvas), o importante era ganhar seu dinheiro nas suas vendinhas. Era só isso! Ela tinha sua mercadoria separada do vovô, pois, aquele dinheiro, bem guardadinho, era para presentear todos, um mimo e suas surpresas. Quem não se lembra do que tinha no fundo do saco de alho e banana. rsrsrsr
Tempo bom, tempo de qualidade, tempo em família. Tudo era festa e motivo para se reunir na casa da vovó!
CASA, quantas casas, daquele casarão passou por várias, até morou em frente de casa, tocando um bolicho com pingas e sinuca, na Vila Nasser? A casa do Bairro Taveirópolis foi marcada pelo café da manhã com bolacha de mel com aquele farelinho de açúcar branco, bem fininho, e uma super xícara de chá (mate ou de capim cidreira). No almoço e jantar sempre era aquele macarrão bucatini, cheio de molho de frango e bem apimentado. Era a hora da nossa felicidade em comermos com a mão mesmo!
A última, uma edícula lá na Rua da Praia no Coophavila. A casa da Jó, como vovô a chamava se tornou um templo de reencontro por anos. Vovô, por muitas vezes, foi apenas sombra. A mesa de tábua foi nosso altar: bolos de aniversário, canjicas (queimadinha de açúcar com amendoim), pequis descascados, bananas fritas ensopadas de óleo, a carne assada fortemente temperada com pimenta do reino e alho e as tchicrinhas de café marcadas com esmalte. Seu quintal era potente, sempre barrido e colorido das mudas de flores e plantas catadas nos veredões e nas vizinhas conhecidas das marretas. Tinham também os cachorros: Princesa e Perigoso foram os mais famosos e os mais temidos.
Nossos feriados tinham cheiro de casa de vó. O Dia das Crianças era uma sombra para o seu aniversário. O Natal, a Sexta-feira Santa, até as melancias nas tardes chuvosas de Finados, os bolos e queijos cortados e as tardes e noites de pamonhada eram nossos rituais sagrados. Dos anos de experiência que iam se acumulando e as trocas de nomes dos filhos e netos era o que nos motivava a amá-la, mais ainda, pois nunca a corrigimos e hoje vemos que é de família. No entanto, sua lucidez nos seus 90 anos era sem igual, nada escapava, mesmo com pouca audição, obrigava-nos a sempre falar alto para escutar.
Vovó foi mãe brava, sua mão era pesada e pesado também foi sua partida, inevitável. Muitas dores, perdões e abraços deixados e simbolizados em uma família que perdeu uma torre. Hoje vovó faz falta, dói, por vezes, só de lembrar, do brilho dos seus olhos e daquela ixpiadinha (muitas vezes sentada no sofá) pra tentar enxergar quem estava chegando em casa.
Contudo, nada como retomar as cores e as alegrias daquelas festas de família, repassar para os mais novos a folia, onde todo mundo se reunia com oração, risada ao som do xote, rasqueado, rancheira, moda de viola e vaneirão tocadas numa vitrola, depois num radinho, ou ao vivo, nas vozes dos tios Anízio e Laurindo.
Vovó Georgina você se tornou nosso memorial!
Que as pelejas, erros e as brabezas da sua vida sejam renovadas em nossos dias com bênçãos, encontros e celebrações!
Amém, Jesus!
Nós sempre te amaremos
Daniel (o doutozinho) e Djulinha (sai da tchuva)!
Amém, Jesus!
Nós sempre te amaremos
Daniel (o doutozinho) e Djulinha (sai da tchuva)!

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