Sobre solitários de casa cheia

Sobre os solitários de casa cheia tenho palavras.

Nesta caminhada tenho encontrado líquidos afetos que se estampam em posts cheios de efeitos e músicas estrangeiras; selfies que buscam comentários, curtidas, os que se decoram de pinks e cordeiros. Por trás de risos amarelados e lentes de contato, apresentam corpos esculpidos por tratamentos não recomendados. Suas angústias transparecem em chás, aromas, fumos e tarjas pretas; doses diárias de álcool, agressividade sofisticada, olhos semicerrados, sem atenção concentrada, ou melhor, focados em apps - avaliar a vida alheia.

Casa de ossos ressequidos que se trombam em horários incomuns, sem cortesias; segregados, gélidos de rituais individualizados. Lugar de cafés gelados deixados na pia, copos quebrados ao lado de pães amanhecidos na mesa e mofo de arroz carreteiro esquecido na geladeira - motivo de farpas por um ano inteiro; atrasados, de feios olhares, acabam que atravessam as rotinas passageiras. As festas e celebrações duram poucas horas em espaços alugados, vendidos como uma comunhão de pessoas hipoteticamente felizes, terceirizadas pelo trabalho de fantasmas e coitados, que nos bastidores assustados gritam: podemos voltar pra "casa"?

Os solitários de casa cheia transformam a comunhão matrimonial dita em meia hora em divisão de bens no mês seguinte, não conversam em si e sobre si, não têm genuinamente o Encontro. Desfalecem. Queimam a largada. Há os que tomam um suspiro retirado em férias passageiras, mas que acaba em falsos presentes que logo são anunciados virtualmente para afirmar: somos uma família brasileira de novela de horário de nobre.

Ah, minha gente! Quanta gente sozinha em casa cheia. Jovens, velhos e criancinhas, que conversam até sozinhas para não demonstrar nossa humanidade em fracasso e em frangalhos! Os solitários que desfalecem laços e reverberam o cume do hedonismo. O prazer escarnecido sobre dores e choros silenciosos nos travesseiros, a real vida que se maquia.

Para os solitários de casa cheia avancemos para romper com um ciclo de desumanização. É possível produzir Laços, Diálogos e Vida, nos espaços onde a pressa, a ganância e a conquista custam mais que um afago quente, um ombro amigo, disposição!

Imagem de Lars Nissen por Pixabay.

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